| Última atualização em 16/08/2011 às 05:56

Pânico mudou tudo nas aplicações de renda fixa

Economistas que esperavam uma nova alta de juros agora já cogitam uma queda; veja o que muda nos investimentos via Tesouro Direto

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Por Adm. Paulo Carvalho

BC: sem nenhum consenso sobre o futuro dos juros, especialistas recomendam a compra de títulos indexados à inflação para investidor com perfil de longo prazo

São Paulo – Não foi apenas nas bolsas de valores globais que o pânico da semana passada deixou suas marcas. Nos investimentos em renda fixa, praticamente tudo mudou nos últimos dias. Em um curtíssimo espaço de tempo, a maioria dos analistas deixou de prever novas altas de juros no Brasil neste ano e passou a apostar na manutenção da Selic no atual patamar – sendo que mesmo o início de um novo ciclo de baixa já não é descartado para breve.

A situação da economia mundial, dizem os especialistas, será chave para desvendar para onde vão os juros. Muitos bancos de investimento e economistas renomados acreditam que os Estados Unidos e a Europa vão se juntar ao Japão e entrarão em uma nova recessão nos próximos meses. É óbvio que a desgraça alheia afetaria diretamente o Brasil. Como não se cansam de repetir os economistas, sempre que os EUA espirram, o resto do mundo pega gripe.

Apesar de nunca ser uma boa notícia para ninguém, uma recessão mundial é vista como uma possível oportunidade para o Brasil. O Banco Central poderia ter a chance de voltar a baixar os juros em breve devido ao efeito benéfico da recessão sobre a inflação. Tanto a redução no preço das commodities quanto a maior oferta de produtos importados no Brasil poderiam aliviar pressões específicas sobre os preços.

Apesar de a direção dos juros ainda ser incerta, já se formou um consenso no mercado sobre o resultado da próxima reunião do Copom, em 31 de agosto. Em entrevista ao editor Luís Artur Nogueira, de EXAME.com, o ex-diretor do BC e economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, afirmou que o BC deverá interromper o ciclo de alta da Selic, mantendo a taxa em 12,5% ao ano. Essa é a aposta de praticamente todo o mercado neste momento.

A mudança de expectativas já teve reflexo nos preços dos títulos de renda fixa Os juros pagos pelo Tesouro Nacional nos últimos leilões mostram, entretanto, que o ajuste foi pequeno. Os títulos públicos prefixados (LTN), que pagavam até 12,70% ao ano há cerca de um mês, hoje oferecem 12,1% ao investidor. De qualquer forma, a chamada “curva de juros” mostra claramente que as especulações em relação ao próximo movimento do BC deixaram de ser de alta e passaram a ser de baixa.

Nesse cenário de possível queda de juros no médio e longo prazo, afirma Bruno Carvalho, especialista de renda fixa da XP Investimentos, o melhor que o investidor tem a fazer é comprar títulos prefixados, como as LTN (Letras do Tesouro Nacional).

Para se ter uma ideia de quanto o investidor poderia ganhar ao se posicionar dessa forma, o Barclays Capital divulgou na semana passada uma estimativa de queda de juros caso o cenário recessivo na Europa e nos EUA se materialize. Em relatório, o analista Marcelo Salomon afirmou que o BC brasileiro poderia ter a chance de cortar a Selic em 3 pontos percentuais, para 9,5%, se o pior acontecer. O investidor que tem em mãos uma LTN que paga 12,1% ao ano em um cenário como esses ganharia, portanto, um bom dinheiro.

O problema é que nem o Barclays, nem a XP nem a maior parte do mercado acreditam ser muito provável um cenário catastrófico nos EUA e Europa. O gerente de investimentos da Lecca, Georges Catalão, por exemplo, não vê espaço para fortes quedas de juros no Brasil em um futuro próximo. Ele lembra que o IPCA está acima do teto da meta e deve retroceder lentamente nos próximos meses. Sua projeção para 2012 é de 5,2% – ainda acima do centro da meta de 4,5%.

Catalão diz que a inflação não cai rápido porque as maiores fontes de pressão sobre os preços estão no setor de serviços. Esse segmento está muito mais sujeito a oscilações no valor dos aluguéis ou do custo da mão de obra do que aos preços das commodities no mercado internacional. Com a expectativa de aumento do salário mínimo de quase 13% no próximo ano e com os reajustes salariais elevados que diversas categorias deverão receber nos próximos meses, uma eventual trégua internacional não seria suficiente para reduzir as pressões inflacionárias. É por esse motivo que ele recomenda aos clientes preferir uma exposição em LFT (Letras Financeiras do Tesouro, que seguem a taxa Selic) ao invés de LTN.

Se não há nenhum tipo de consenso entre especialistas sobre o futuro dos juros, uma aposta sensata para o momento parece ser a compra de títulos indexados à inflação. As NTN-B pagam atualmente IPCA mais uma taxa de juros de 6,4% ao ano. Se a inflação de pouco mais de 6% esperada pelo mercado para os próximos 12 meses se materializar, o investidor levaria para casa uma remuneração anual de cerca de 13% ao ano. Na visão dos especialistas da Lecca e da XP, essa é, neste momento, a melhor opção para o investidor que planeja deixar os recursos aplicados no longo prazo.

Fonte: Exame

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